sábado, 7 de maio de 2011

A segunda desventura da Marie

Desde que eu criei esse blog, sabia que teria que escrever esse post. E tentei adiar ao máximo, porque a segunda desventura da Marie é um assunto sobre qual eu procuro não pensar. Procuro não pensar porque foi difícil demais na época e porque é difícil ainda pensar no futuro. E se escrevo agora é porque sei que é importante informar a todos aqueles que têm gatos sobre um assunto do qual eu não tinha nenhum conhecimento. E só consigo escrever nesse momento porque a Marie está aqui deitadinha no meu colo me mostrando que está tudo bem.
Partindo então para o relato que espero ser sucinto – até porque é difícil entrar em detalhes –, a segunda desventura da Marie começou como conseqüência da alergia que eu mencionei anteriormente. Quando não se consegue determinar a causa da alergia, o tratamento em geral recomendado é o uso de medicamentos à base de glicocorticóides, que têm ação imunossupressora. Marie tomou dois ciclos de corticóides e depois do segundo ciclo, começou a ficar quietinha, tristonha. Como na época ela estava usando o colar elisabethano para não se machucar com a coceira, achei que a tristeza era por isso. Mas passados alguns dias ela quase não comia e quase não saía do lugar. Para uma gatinha super ativa como a Marie aquilo não podia ser normal. Quando liguei para a veterinária e relatei os sintomas, ela me disse que para levar a Marie correndo para a clínica. Era aniversário do meu namorado. Ele foi trabalhar e eu fui sozinha para o veterinário com a gatinha.
Quando chegamos lá, só de olhar para a Marie a veterinária disse: “ela está anêmica”. Quando ela tirou uma amostra de sangue para analisar o hematócrito, o sangue saía tão lento que ela disse: “ela está muito anêmica”. Enquanto a amostra era processada, ela me perguntou se a Marie já tinha tido pulga e depois parou e perguntou se ela já tinha sido testada para FeLV. Como eu nunca tinha ouvido falar disso, disse que achava que não. Ela se sentou e me explicou então que havia 3 principais causas de anemia em gato. A primeira delas era hemorragia, que não era o caso da Maroca. A segunda era infecção por micoplasma (Mycoplasma haemofilis  ou Mycoplasma haemominutum), que é transmido principalmente por picada e pulga, e a terceira era FeLV.
A sigla FeLV vem do inglês (feline leukemia virus) e significa vírus da leucemia felina. Eu nunca tinha ouvido falar nesse vírus e prometo dedicar um post só sobre esse assunto, mas falando rapidamente, o vírus da leucemia felina é um vírus que causa imunodeficiência semelhante ao FIV (o HIV felino), com o agravante de poder gerar leucemia. Foi muita informação para assimilar em um intervalo de tempo tão pequeno, mas a veterinária me explicou que o vírus não tinha cura e que quando chegava na medula óssea podia causar anemia. Ela me sugeriu fazer o teste e disse que o resultado era bem rápido.
O teste para FeLV e FIV pode ser feito por ELISA ou por PCR. No primeiro caso é bem semelhante ao teste para gravidez (aparece um sinal de + ou – caso o gato seja positivo ou negativo para um ou para os dois vírus). É só pingar uma gotinha de sangue no kit e o resultado sai em cerca de 15 minutos. Fui para a sala de espera desesperada e tentando assimilar tudo aquilo. Fiquei sentada com a Marie dentro da caixinha no meu colo pedindo de todas as formas que eu podia pedir para que a minha gatinha tivesse uma infecção de micoplasma. Nunca vi isso. Ao invés de ter pedido e rezado para que ela não tivesse FeLV, pedi para ela ter uma infecção por micoplasma.
Depois daqueles 15 minutos que me pareceram 15 horas de angústia, fui chamada de volta à sala. Marie foi diagnosticada com o vírus da leucemia felina. Naquele momento eu não conseguia assimilar mais nada. Chorava compulsivamente enquanto a veterinária dizia que o hematócrito da Marie estava baixíssimo e que ela teria que receber uma transfusão de sangue. Disse ainda que se o vírus tivesse chegado à medula óssea não haveria mais nada a fazer senão “colocar fim ao sofrimento dela”. Foi demais para mim. Aquilo não podia estar acontecendo, não com a minha gatinha. E naquele desespero todo eu precisava arrumar sangue para ela porque a veterinária disse que a transfusão precisava ser feita naquele dia. Ou seja, eu tinha que arrumar um gato doador ou recorrer a um banco de sangue.
Nunca tinha pensado nisso, mas não é muito simples conseguir sangue para um gato. Fui para a casa levando a Marie e assim que cheguei liguei para o meu namorado e pedi: “volta”. Era aniversário dele e um dos piores dias da minha vida.

(continua no próximo post)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Cat sitter"

A primeira vez que eu ouvi essa expressão foi quando eu morava em Boston. Um belo dia apareceu uma gatinha super fofa lá em casa sem mais nem menos. Após verificar que todas as janelas estavam fechadas, acabamos descobrindo que ela morava no andar de cima da casa e tinha caído pelo forro do teto do banheiro. Parece coisa de filme, né? Quando devolvemos a gata, o dono – que ainda não tinha notado a falta dela – viu como eu tinha gostado da companhia e disse que eu poderia ser cat sitter dela quando precisasse. Acabou ficando por isso mesmo e desde que eu adotei a Marie tenho sentido falta de uma cat sitter.
Quem tem gato sabe que é complicado levar em viagens. Cachorro normalmente viaja bem para lugares próximos, mas os gatos sofrem muito, fora o medo de fugirem. E por mais que digam que eles são super independentes eu não consigo deixar a Marie sozinha. A minha gatinha é carente demais. Desde que adotamos a Maroca – há um ano e cinco meses, eu e o meu namorado viajamos juntos 3 vezes. Na primeira vez, passamos uma semana fora e meus pais se mudaram pra cá. Meu pai, aquele que não me deixava ter gato, veio aqui pra casa cuidar da Marie. Isso é que é prova de amor. Nas outras vezes, ficamos fora só por um final de semana e convenci amigos e a minha irmã a passarem aqui para colocar comida para ela. O fato é que a gente acaba incomodando muita gente quando resolve viajar. Mas como resolver esse problema?
Uma opção são os hotéis para animais. Eu conheço pessoas que já deixaram seus cachorros nesses hotéis, mas não conheço ninguém que tenha deixado o gato. Os gatos são muito territorialistas e ficam acuados quando mudam de casa. Eu pessoalmente teria muito medo de deixar a Marie em algum desses gatis, por melhor que fosse a aparência do lugar.
A outra opção é contratar uma cat sitter. Eu nem sabia que o serviço era oferecido aqui no Rio, até que vi hoje uma reportagem na Ana Maria Braga – pois é, meu namorado assiste “Bom dia Brasil” e a TV continua ligada depois que o jornal acaba – falando justamente disso. A reportagem era com a cat sitter Rafaela Velmovitsky, fundadora do cat sitter dos sonhos (http://www.catsittersonhos.com/). Achei a idéia ótima!  No site ela diz que troca a ração e a água, limpa a caixa de areia, dá carinho e até remédio. Como ponto positivo, ela diz que manda fotos e filmes diariamente para os donos (!). O ponto negativo é que pelo que eu entendi, ela passa só umas duas horas por dia com os gatinhos. Acho que a Maroca ia continuar carente... Dei uma olhada rápida na internet e poucas pessoas parecem oferecer esse serviço aqui no Rio. Fica aí uma dica para quem quiser investir nisso. Eu já fui cat sitter várias vezes para a Panqueca, gata da minha irmã, e posso dizer que é um trabalho ótimo para quem gosta de gatos.
Conhece alguma cat sitter ou algum hotel para gatos com bom atendimento? Deixe aqui um comentário.
Na foto, Marie escondida na mochila tentando viajar com a gente.



terça-feira, 5 de abril de 2011

Desafiando a gravidade

      Pesquisando um pouco sobre gatos, encontrei um artigo publicado em Novembro de 2010 na revista Science (artigo de capa!) que tratava de um assunto bastante curioso: de como os gatos precisam vencer a gravidade para beber água.
O ato de beber água é, na verdade, um desafio para todos os animais terrestres, já que eles precisam puxar a água contra a gravidade. Animais como cavalos e ovelhas usam a sucção para isso, mas os gatos e cachorros têm estratégias diferentes. Quem já observou um cachorro bebendo água, pôde notar que eles usam a língua como uma concha para trazer a água até a boca. Quem já observou com bastante atenção um gato bebendo água, pôde notar que a estratégia é outra.
Ao contrário do que acontece com os cachorros, a língua dos gatos não mergulha no líquido. A ponta da língua – que não tem aquela aspereza característica do restante – é a única parte que entra em contato com a água. A língua do gato toca o líquido curvada para trás e quando o gato levanta a língua, o líquido que estava aderido a ela é “puxado para cima” formando uma coluna de água. É importante destacar que a parte ventral da língua, ou seja, a parte da frente,  não toca o líquido. Apenas a ponta da parte de trás é que toca a água e cria a coluna. Incrível, né?
Estimativas das forças relacionadas ao processo sugerem que a dinâmica de fluido envolvida no ato de beber água dos gatos é governada pela inércia e pela gravidade. A inércia contribui para que o líquido suba através da coluna enquanto a gravidade atua de maneira a colapsar a coluna. Complicado, né? Mas como uma imagem vale mais do que mil palavras, eu recomendo uma espiadinha em algum dos vários vídeos disponíveis na internet com imagens em câmera lenta de gatos bebendo água ou leite. É realmente incrível como eles conseguem vencer a gravidade para beber.
No caso da Marie, a preguiça às vezes é grande e ao invés de vencer a gravidade para beber no potinho, ela prefere pegar a água direto da torneira. Muito mais prático, né? Esperta essa minha gatinha.
Gostou do estudo? Para mais detalhes, recomendo o artigo completo: “How Cats Lap: Water Uptake by Felis catus”, de Reis e colaboradores (Science vol 330, 2010) ou o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=Fgf9y8mo414&feature=related.

Na foto, a capa da Science e a Marie, espertinha, bebendo água direto da torneira.

domingo, 3 de abril de 2011

Gato também tem alergia?

Todo mundo provavelmente já ouviu falar de alguém que tem alergia a gato, certo? Agora acho que nem todo mundo sabe que gatos também têm alergia.  Eu mesma nunca tinha pensado no assunto até a Marie começar a se coçar. Pois é, logo depois do episódio da rede de limão e coincidindo com uma viagem minha, a Marie começou a se coçar com muita força principalmente no pescoço, no queixo e nas orelhas. E como eu nunca consigo cortas as unhas da danada, ela se machucava muito cada vez que se coçava.
Na primeira visita ao veterinário – quando eu ainda estava viajando – foi passado um anti-alérgico.  A princípio o anti-alérgico pareceu funcionar, apesar de deixar a gatinha extremamente sonolenta, mas era claro que não podíamos manter a Marie a base de Polaramine para o resto da vida. Comecei então a pesquisar sobre o assunto. Pelo que vi, existem 4 tipos principais de alergia em gatos: alergia de contato, alimentar, inalatória e alergia a pulga. Os sintomas são principalmente de coceira no corpo – em áreas específicas ou generalizada – mas pode haver também sintomas respiratórios e secreção nasal e oral. O mais difícil parece ser descobrir a causa da alergia.
Quando a alergia é alimentar, fica fácil resolver o problema. Em geral, os gatos têm alergia ao componente protéico da ração e no mercado existem rações hipoalergênicas, que possuem proteína de soja ao invés de proteína animal. Sei que a Royal Canin tem ração hipoalergênica para gatos, mas não sei dizer se alguma outra empresa também oferece. Torcendo para que a alergia da Maroca fosse alimentar, comprei um pacote da ração; que está em cima da minha geladeira até hoje. Pois é, a Marie se recusou a comer. Ela literalmente preferia passar fome a comer a tal ração de soja. Vegan ela não é e nem pretende ser.
A opção foi buscar uma ração que tivesse apenas um tipo de proteína animal e torcer para ela não ser alérgica àquele tipo específico. Olhei todas as embalagens do mercado e a grande maioria das rações mistura diversos tipos de carne. Só encontrei mesmo a Guabi que só tinha proteína de frango. Comecei a dar e nada da coceira melhorar. A veterinária explicou que levava pelo menos 8 semanas para que todos os componentes da ração anterior saíssem do sistema e só então poderíamos analisar se a mudança de alimentação tinha ou não melhorado a coceira.
Passamos então para a alergia de contato. Logo de cara, trocamos a areia sanitária. Experimentei várias – de pedrinhas, de trigo, de madeira – e acabei optando pelo trigo, mas nada da coceira melhorar. Proibi todo e qualquer material de limpeza em casa – só usamos álcool e água sanitária bem diluída – e por fim troquei o sabão em pó por sabão de coco. Nada melhorava e as feridas estavam cada vez piores. A Marie não tinha mais pêlo no queixo e tivemos que colocar o colar elisabetano para ela parar de se machucar.
Nesse meio tempo, mudamos de veterinária. A primeira disse logo de cara que seria quase impossível descobrir a causa da coceira. Disse que podia ser alérgica ou auto-imune e passou logo um tratamento com corticóide. Chegamos a dar um ciclo de corticóides meio temerosos e, apesar de diminuir um pouco a coceira, o tratamento não eliminou o problema.
Mudamos de veterinária e a nova – especializada em gatos e que continua tratando a Marie até hoje – disse que a alergia podia estar relacionada a estresse, já que tinha começado logo depois da cirurgia. Compramos então um difusor com Feliway. Propondo ser “o segredo do gato feliz”, o Feliway é um análogo sintético do ferormônio facial dos gatos, que é usado para marcar o território (farei um post sobre isso no futuro), e teoricamente cria um ambiente de segurança e familiaridade para o gato. Resumindo: também não funcionou.
Acabamos fazendo mais um ciclo de corticóides que teve um efeito péssimo na Marie – segunda desventura que será abordada em algum dos próximos posts – e fomos para uma dermatologista que também não resolveu o problema. Final da história: de uma hora para outra a coceira foi diminuindo. O fato é que durante um período grande estávamos cercados de obras: no apartamento em cima, no prédio da frente e na rua.  E quando as obras acabaram a coceira melhorou. Não posso afirmar que o problema fosse esse, mas o pêlo do queixo voltou a crescer. Acho que a Marie é alérgica a poeira e que o estresse potencializa o problema. É só alguém falar um pouco mais alto que ela começa a se coçar. De vez em quando ela ainda acorda com os olhos lacrimejando ou se coçando demais, mas é só dar anti-alérgico por alguns dias que ela melhora. E o mais legal é que ela aprendeu que não pode se coçar com força. Quando ela começa a se coçar, a gente diz “devagar, Marie” e ela deixa de fazer força. Parece incrível, mas é verdade! A moral da história é: se o seu gato é alérgico, tente eliminar a causa da alergia ao invés de tratar com corticóide. Prometo pesquisar sobre testes de alergia e imunoterapia em gatos para postar logo logo.

Na foto, Marie super insatisfeita com o colar elisabetano feito de filme para raio-X.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A tal da pica...

Bom, depois do episódio da rede de limão, resolvi estudar um pouco o assunto e descobri que o distúrbio de comportamento da Marie tem um nome: pica. Estranho, né? Mas o nome é esse mesmo: pica. Aparentemente o nome vem do latim e significa “magpie”, um pássaro que pela tradução que eu encontrei se chama “pega” e que come tudo o que encontra pela frente. Pica é justamente isso, um distúrbio alimentar caracterizado pelo apetite por substâncias não-nutritivas, como metal, terra, tecido e até mesmo fezes. Enfim, esse distúrbio é observado até mesmo em humanos, especialmente em crianças e mulheres grávidas.
Em humanos o mais comum é a geofagia, ou seja, a ingestão de terra, e normalmente está associada à deficiência de ferro no organismo. Em gatos, a pica está associada em geral à ingestão de lã e foi descrita principalmente em siameses. Ainda não se sabe ao certo porque os gatos desenvolvem pica, mas acredita-se que haja um componente genético e fatores ambientais que desencadeiam o distúrbio. Existem algumas teorias associando a pica ao desmame precoce do gatinho ou a situações de estresse agudo, mas essas teorias ainda não foram comprovadas.
Em um estudo feito na Inglaterra com donos de gatos, foi demonstrado que 22% dos gatos com pica ingerem borracha ou materiais plásticos, como fios elétricos. Acho que não comentei no post anterior, mas a Marie adora morder os fios aqui de casa. A única solução para o problema foi encapar todos os nossos fios com uma fita adesiva colada com o lado adesivo para fora. Assim, ao tentar morder o fio, Marie fica grudada e desiste. Não vou mentir, é bem feio ver todos os fios da casa colados com fita adesiva, mas a técnica realmente funciona. Recomendo!!
Voltando a pica, os estudos mostram que os gatos em geral começam sugando ou mastigando os materiais e terminam por ingeri-los. Segundo o estudo inglês, a pica se inicia no primeiro ano de vida do gato (como foi o caso da Marie) e pode persistir por vários anos (lucky me!). Quando os gatos mudavam de casa, em 81% dos casos, a pica se iniciava 4 meses após a mudança (mais ou menos quando começou a pica da Marie!), sugerindo que essa mudança poderia desencadear o distúrbio. Felizmente, o estudo mostrou também que na maioria dos donos de gatos entrevistados (66%), o desenvolvimento de pica não reduziu o prazer de ter um gato em casa. Ou seja, ter gato é bom demais, mesmo que ele tenha pica!!!
Para mais informações, recomendo o artigo intitulado “factors affecting pica in the domestic cat” de Bradshaw e colaboradores (1997).


domingo, 23 de janeiro de 2011

A primeira desventura de Marie

Bom, como nem tudo são flores, chegou a hora de contar um pouco das desventuras da Marie citadas ali no subtítulo do blog.
Sua primeira desventura aconteceu em abril de 2010, quando ela tinha mais ou menos 7 meses de idade. Marie sempre foi muito brincalhona e adorava quando a gente jogava uma bolinha, balançava uma fita ou qualquer outra coisa improvisada. Um dia, saímos de casa rapidamente para comprar alguma coisa e quando voltamos encontramos Marie fazendo uns barulhos estranhos. Fomos correndo até ela e de repente ela vomitou. Como ela nunca tinha feito isso antes, fiquei nervosa e liguei logo para a veterinária. Era um domingo e a clínica não funcionava, mas ela atendeu o celular e disse que o vômito poderia ser resultado de alguma irritação, provavelmente gerada por alguma coisa que ela tinha comido. Como dentro da pia da cozinha eu tinha deixado uma panela com sabão, imaginamos que esse era o motivo da irritação e ela receitou um remédio para enjôo. Dei o remédio, mas o vômito não parou. Marie continuou vomitando o resto do dia. Liguei novamente para a veterinária e ela me aconselhou a levar a gatinha para uma clínica especializada em gatos que funcionava 24 horas por dia. Já era noite e eu e meu namorado fomos correndo levar a Marie para a clínica.
Acho que não comentei isso antes, mas a minha gatinha é, digamos assim, um pouco temperamental e a ida para o veterinário é sempre meio dramática. Assim que descrevemos o problema para a veterinária de plantão ela disse que tudo indicava que a Marie tinha ingerido um “corpo estranho”. Ou seja, tudo indicava que ela tinha comido algo que não era comestível. O exame clínico foi inconclusivo – até porque é bem complicado examinar a Marie – e a veterinária me fez prometer levá-la para fazer uma ultrassonografia na segunda de manhã o mais cedo possível. Passamos uma noite péssima, Maroca vomitou o tempo todo e de manhã ela finalmente vomitou o “corpo estranho”. O tal “corpo estranho” era um pedaço daquela redinha de nylon que em geral é utilizada para limão e que na véspera eu tinha usado para brincar com a Marie. Óbvio que eu não podia imaginar que além de brincar e morder a rede ela ia efetivamente comê-la, mas confesso que fiquei culpada. Fomos correndo para a ultrassonografia torcendo para que ela já tivesse eliminado toda a rede. Precisamos de três pessoas para segurar a Marie enquanto o exame era feito. Ela não parava de se mexer e a veterinária não parava de suar. Finalmente veio o veredicto: havia ainda um “corpo estranho” no intestino e alguma coisa no estômago, que poderia ser ar.
Voltamos para a clínica e a veterinária foi enfática: era necessário operar a Marie o mais rápido possível. Não gosto nem de me lembrar. Aquelas horas de espera enquanto ela estava na cirurgia foram algumas das horas mais angustiantes da minha vida. Quando finalmente liguei e me informaram que a cirurgia tinha acabado, corri para vê-la. Tiraram um pedaço de rede do intestino e um pedaço ainda maior do estômago. Minha gatinha estava ainda meio anestesiada, fraquinha, mal se agüentando em pé, mas tava lá, fazendo pose de durona e rosnando para todo mundo que se aproximasse. Essa é a nossa Marie.
A veterinária recomendou então que a Maroca ficasse internada uns 3 dias para controlar o risco de infecção e nos mandou para casa. Fui embora com o coração apertado. Muito estranho chegar e não ver a Marie nos esperando na porta. Acho que não estávamos nem há 15 minutos em casa quando o telefone tocou. Era a veterinária: “Será que vocês podem buscar a Marie hoje? É que ela está assustando os outros gatos.” Pois é, essa é a nossa gatinha. Os 3 dias de internação foram rapidamente transformados em algumas horas, porque aparentemente ela arrancou o soro e rosnava e gritava tanto que ninguém conseguia se aproximar dela. Os outros gatinhos internados estavam ficando assustados. Mas tudo bem, o importante é que voltamos para casa com a nossa Marie. Acho que não ia mesmo agüentar a agonia de ficar longe dela. A cirurgia correu bem e nos dias seguintes ela tomou uma porção de remédios (antibiótico, antiinflamatório, analgésico e sei lá mais o quê) e foi se recuperando super bem. Eu tinha viagem marcada para os Estados Unidos para 2 semanas depois dessa confusão toda, mas felizmente a Maroca se recuperou antes disso.
A partir desse episódio, nossa gatinha ficou conhecida na clínica como a “Marie do corpo estranho”. Meu namorado acha um absurdo e diz sempre que o corpo dela é normal.  De qualquer forma, fica o alerta para todo mundo que tem gato: muito cuidado com os brinquedos que vocês oferecem a eles. Muitos gatos apresentam desvio de comportamento e acabam comendo o que não devem. Como eles não conseguem eliminar esses “corpos estranhos” como os cachorros em geral fazem, a única solução é cirúrgica. Então, todo cuidado é pouco!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Por que os siameses escurecem?

Quando peguei a foto da Marie pequenininha para colocar aí no post anterior tomei um susto. Marie escureceu muito desde que chegou aqui! E apesar da Marie não ser uma siamesa e sim uma legítima “sialata”, ou seja, uma mestiça de siamês com vira-lata (ou gato sem raça definida se vocês preferirem), ela herdou essa característica dos siameses. Embora ou não soubesse disso quando especifiquei que queria uma siamesa de pêlo claro, descobri depois que todos os siameses nascem clarinhos e vão escurecendo com a idade. Mas por que isso acontece?
Bom, pesquisando rapidamente descobri que os gatos siameses possuem um tipo de albinismo. Albinismo? Pois é, quando a gente pensa em albinismo pensa logo naquele coelhinho branco com olhos vermelhos ou naquela pessoa bem branca que não pode pegar sol, certo? Mas na verdade o albinismo está relacionado a defeitos na enzima responsável pela produção da melanina, proteína responsável pela pigmentação da pele ou do pêlo. Os gatos siameses – e todos os gatos que apresentam padrão de coloração semelhante aos siameses, chamado em inglês de point ou colourpoint – possuem uma mutação na enzima tirosinase, que estimula a produção da melanina. Essa mutação resulta da substituição de um aminoácido apenas e é diferente para gatos siameses ou gatos sagrados da Birmânia. Mas nos dois casos, a enzima mutante é sensível a temperatura e só é ativa a temperaturas mais baixas que a temperatura corporal. Desta forma, os gatos siameses possuem pigmentação apenas nas regiões mais frias do corpo, como a face, o rabo e as patas. A falta de pigmentação nos olhos faz com que eles sejam azuis. Iluminando o olho da Marie eu vejo claramente que ele fica avermelhado! Mais um indício de que a minha gatinha é albina! Quando o olho de um gato é pigmentado, ele fica esverdeado quando iluminado. O albinismo traz uma série de conseqüências para a visão! Mas isso já é assunto para outro post.
Voltando à questão do pêlo, como o útero é quentinho, os gatinhos nascem bem clarinhos e vão escurecendo com o tempo. Gatos siameses que vivem em regiões mais frias tendem a escurecer mais do que gatos que vivem em regiões tropicais. Incrível que a Marie tenha escurecido tanto vivendo no Rio de Janeiro!!
Siameses e sagrados da Birmânia em geral são homozigotos para a tirosina mutante. Ou seja, tanto o cromossomo herdado da mãe como o cromossomo herdado do pai apresentam a forma mutante da enzima. Gatos heterozigotos para a mutação – ou seja, que possuem essa mutação em apenas um dos cromossomos – apresentam uma gradiente de cores intermediário. Acho que a Marie é heterozigota.
Agora uma curiosidade: essa mutação na tirosinase não ocorre apenas em gatos. Coelhos e camundongos, por exemplo, podem apresentar a mesma mutação. Nesse caso, eles são chamados de himalaios. Embaixo fotos da Marie antes e depois de escurecer e uma foto de um coelho himalaio.