quinta-feira, 30 de junho de 2011

Como os gatos se comunicam com os donos (ou como os gatos manipulam seus donos)

Muitas pessoas que não tem nem nunca tiveram contato com gatos talvez não acreditem, mas eles realmente aprenderam a se comunicar conosco. A Marie, por exemplo, tem um miado diferente para cada coisa que ela quer. Quando quer comida o miado é de um jeito, quando quer atenção o miado é outro, quando quer ajuda para caçar um bicho o miado já é completamente diferente. E por assim vai. Ainda não gravei para provar, mas encontrei um artigo que trata justamente desse assunto.
Karen McComb e colaboradores da Universidade de Sussex, no Reino Unido, gravaram o ronronar de 10 diferentes gatos em duas situações diferentes: numa situação em que o gato estava pedindo comida e numa situação em que o gato não estava pedindo nada. Ao contrário do que se pensa, os gatos não ronronam apenas quando estão felizes, mas também quando pedem comida e até mesmo quando estão sentindo dor. Os diferentes sons foram então exibidos para 50 voluntários donos ou não de gatos e em todos os casos os voluntários sabiam perfeitamente qual era o som de pedido, ou seja, em qual dos casos o gato estava pedindo comida. Incrível, né? Isso sem conhecimento prévio! É claro que os donos de gatos se saíram melhor nos testes do que os voluntários que não tinham contato nenhum com gato, provando que os gatos ensinam seus donos a reconhecer os seus miados!
Analisando a composição do som do ronronar dos gatos, os pesquisadores observaram que além do som em baixa freqüência – característico do ronronar – havia um componente de freqüência mais alta quando os gatos estavam pedindo comida. A inclusão de um componente de alta freqüência no ronronar faz com que ele fique menos harmônico e, por isso, mais incômodo. Ou seja, faz com que o dono tome alguma atitude! Além disso, o pico de freqüência está bem próximo à freqüência do choro de bebês humanos, fazendo com que os humanos fiquem mais suscetíveis a eles! Espertos esses gatos, né?
Quando a Marie mia no meio da noite eu juro que tento ignorar, mas não tem como. A gatinha sabe mesmo miar na freqüência certa!! Acho que os gatos já aprenderam mesmo a nos manipular. Quer saber mais? Confira o artigo completo: “The cry embedded within the purr”, de McComb e colaboradores (2009).

terça-feira, 7 de junho de 2011

No inverno, nada melhor do que cobertor de gato!

Bom, depois dos últimos posts, achei melhor escolher um assunto leve pra variar. O meu dia-a-dia com a Marie tem alguns momentos tensos, mas os momentos bons sempre superam os ruins!
Enfim, de uns tempos para cá, a Maroca tem estado ultra carinhosa conosco. A qualquer oportunidade ela sobe no nosso colo e pode ficar lá por horas, até as nossas pernas começarem a ficar dormentes. Comecei a relacionar, então, a carência da Marie com o frio e os dois são diretamente proporcionais! Ou seja, quanto mais frio, mais a gatinha procura o nosso colo. Durante a noite eu às vezes estou morrendo de frio, toda encolhida e é só a Marie chegar que eu vou esquentando, esquentando, até ficar realmente com calor. É por isso que eu digo: no inverno, nada melhor do que cobertor de gato!
A Marie é muito quentinha, tão quentinha que me fez pesquisar a temperatura corporal dos gatos. Pois é, os gatos são realmente mais quentes do que nós e a temperatura deles varia de 38 a 39 graus. É por isso que em geral eles agüentam temperaturas externas mais altas do que nós. Segundo a Wikipédia (pois é, não consegui nenhum artigo científico dessa vez), enquanto nós começamos a sentir desconforto a temperaturas de 44,5ºC, os gatos só sentem desconforto quanto a temperatura ultrapassa 52ºC! E eles podem tolerar temperaturas de até 56ºC!!! Em compensação, eles sentem frio no inverno. É por isso que dona Maroca está sempre procurando calor humano ou um edredom bem quentinho!

domingo, 8 de maio de 2011

A segunda desventura da Marie - continuação

Continuando o post anterior, eu precisava conseguir com urgência um doador para a Marie. Quando meu namorado chegou, ligamos para a minha irmã em Paris explicando a situação e pedindo doação de sangue da gata dela (que estava aqui no Rio). Ela foi mais do que prestativa e conseguiu dois doadores: o Gaspar, gato do Daniel, meu vizinho e amigo de anos da minha irmã (praticamente meu irmão) e a Panqueca, gata dela. Fomos primeiro com o Gaspar para a clínica para ver se eles eram compatíveis. Pelo que eu aprendi, existem 3 tipos sangüíneos de gatos: A, B e AB, sendo que mais de 80% dos gatos domésticos têm sangue do tipo A e o tipo AB é raríssimo. Ou seja, era pouco provável que eles não fossem compatíveis.
Como na clínica eles não têm o kit de tipagem sangüínea, para saber se os dois gatos são compatíveis eles misturam um sangue com o outro e vêem se há aglutinação, ou seja, vêem se há coagulação. Quando o sangue do Gaspar foi misturado ao sangue da Marie, veio o resultado: os dois não eram compatíveis. Ninguém podia acreditar. A veterinária ligou então para um banco de sangue na Lapa e explicou o problema. A bióloga responsável pelo banco disse que eles tinham lá um sangue tipo B que podia ser testado com o sangue da Marie.
Fomos correndo para a Lapa levando uma amostra do sangue da Maroca. A gatinha ficou na clínica em observação. No banco de sangue (que na verdade não possui sangue armazenado, mas vários doadores cadastrados que doam quando necessário) mais uma negativa: o sangue da Marie também não era compatível com o sangue B que eles tinham lá. Confesso que fiquei até aliviada, porque as condições de higiene do local não eram nada boas e eu não queria mesmo ter que comprar uma bolsa de sangue para a Marie lá.
No taxi voltando para a veterinária, acionamos a nossa última possibilidade: a Panqueca. Quando o terceiro sangue testado não foi compatível, a veterinária concluiu que na verdade a Marie estava com uma anemia hemolítica, ou seja, as hemácias dela estavam se rompendo e por isso estava havendo aglutinação com todos os sangues testados. A essa altura já havia saído o resultado da análise inicial do sangue dela e o resultado foi positivo para micoplasma. Como a infecção por micoplasma pode causar anemia hemolítica, comecei a pedir muito para que a anemia dela fosse causada pelo micoplasma e não pelo FeLV.
A essa altura não tínhamos como saber se a Marie era ou não compatível com a Panqueca, mas a veterinária disse que não poderíamos esperar e que a melhor opção seria fazer a transfusão assim mesmo. Foi o que fizemos. A pobre da Panqueca, que não tinha nada, foi anestesiada e virou doadora. Santa Panqueca. Receber o sangue dela foi a melhor coisa que podia ter acontecido com a Marie. Como disse o meu namorado, sangue de fera faz milagre. Impressionante. Logo que chegou em casa, Marie estava bem mais disposta e foi logo comer. Como melhorou rápido a minha gatinha!
Mas a transfusão resolveria apenas o problema imediato. Para tratar a Marie, saímos da clínica com receita para doxiciclina (para combater o micoplasma), um anti-retroviral (para o FeLV) e mais um composto de vitaminas com ferro para a anemia. Começamos o tratamento com a doxiciclina imediatamente, rezando para a anemia ter sido causada pelo micoplasma. A veterinária explicou que o sangue transplantado ficaria cerca de 10 dias no sistema da Marie e que depois disso seria a prova de fogo. Se a anemia fosse causada pelo micoplasma, quando a infecção fosse combatida, a Marie conseguiria manter o hematócrito normal depois que o sangue da Panqueca saísse do sistema dela. Caso a anemia fosse causada pelo vírus, a medula já estaria comprometida e a Marie não conseguiria manter o hematócrito normal. Marcamos um novo hemograma para a semana seguinte.
No meio tempo, uma nova luta para comprar o anti-retroviral. Esses remédios são utilizados para tratar pacientes HIV+ e são fornecidos pelo SUS. Ou seja, é quase impossível comprar. Acabei conseguindo comprar em São Paulo, graças à ajuda da minha tia e do Ronaldo e da Marília, amigos dela que mora lá e compraram o remédio pra mim e me mandaram por sedex. Mais uma luta vencida.
Finalmente fizemos o novo hemograma. Tensão total. O hematócrito normal de gato é de 30 a 45 (pelo menos pelo que eu achei numa busca rápida agora). O da Marie antes da transfusão estava 14. Depois da transfusão, a veterinária disse que esperava que subisse para 24. Após o hemograma, uma surpresa boa: hematócrito de 30%. Marie estava ótima. E o hematócrito se manteve normal todas as vezes que testamos. A anemia tinha sido realmente causada pela infecção oportunista do micoplasma. Nem acreditei.
A infecção por micoplasma foi provavelmente conseqüência da baixa imunológica causada pelo uso de corticóides. Ou seja, apesar da Marie ser FeLV positiva, até agora felizmente o vírus não se manifestou. Dos gatos que entram em contato com o vírus da leucemia felina, cerca de um terço consegue eliminar o vírus (precisamos estudar esses gatos resistentes!!), outro terço desenvolve a doença e o terço restante é portador do vírus mas nunca desenvolve a doença. Torço, rezo e peço muito para que a Marie esteja nesse último grupo. Tento não pensar no futuro. Tento não ler sobre expectativa de vida. Tento aproveitar ao máximo a gatinha linda que está ao meu lado. Tento pensar apenas que essa batalha foi vencida e que por enquanto nada mais importa.
Depois de tudo o que aconteceu, acho importante deixar um alerta para todos que pretendem adotar um gato de rua. Não deixem de adotar!! Adotem, porque ter gato é a melhor coisa do mundo!!! Mas peçam o teste para FIV e FeLV. É importante dizer que apesar de não ter cura, há vacina para FeLV. Essa doença horrível pode e deve ser combatida. Espero que haja mais divulgação da vacina, espero que sejam feitas campanhas de vacinação contra FeLV e que os nossos gatinhos deixem de ser contaminados. Prometo dar mais informações no próximo post.
Termino dizendo que muitos falaram que eu tive azar em adotar uma gatinha com FeLV. Para essas pessoas, eu tenho que dizer que eu tenho é muita sorte de ter a Marie ao meu lado. Não poderia desejar uma gatinha mais perfeita. Termino ainda agradecendo a todos que nos ajudaram a vencer essa segunda desventura da Marie: Daniel, Sérgio, Pedro e Tânia – que levaram ou ajudaram a levar o Gaspar e a Panqueca para serem testados – Vera, Ronaldo e Marília – que me ajudaram a comprar o anti-retroviral. Sem contar o Gabriel, meu namorado, que manteve o controle durante todo o tempo e fez tudo o que eu não consegui fazer. Obrigada a todos vocês.

Nas fotos, a super Panqueca, heroína da Marie, e o Gaspar.
Obrigada pela ajuda gatinhos!!!

sábado, 7 de maio de 2011

A segunda desventura da Marie

Desde que eu criei esse blog, sabia que teria que escrever esse post. E tentei adiar ao máximo, porque a segunda desventura da Marie é um assunto sobre qual eu procuro não pensar. Procuro não pensar porque foi difícil demais na época e porque é difícil ainda pensar no futuro. E se escrevo agora é porque sei que é importante informar a todos aqueles que têm gatos sobre um assunto do qual eu não tinha nenhum conhecimento. E só consigo escrever nesse momento porque a Marie está aqui deitadinha no meu colo me mostrando que está tudo bem.
Partindo então para o relato que espero ser sucinto – até porque é difícil entrar em detalhes –, a segunda desventura da Marie começou como conseqüência da alergia que eu mencionei anteriormente. Quando não se consegue determinar a causa da alergia, o tratamento em geral recomendado é o uso de medicamentos à base de glicocorticóides, que têm ação imunossupressora. Marie tomou dois ciclos de corticóides e depois do segundo ciclo, começou a ficar quietinha, tristonha. Como na época ela estava usando o colar elisabethano para não se machucar com a coceira, achei que a tristeza era por isso. Mas passados alguns dias ela quase não comia e quase não saía do lugar. Para uma gatinha super ativa como a Marie aquilo não podia ser normal. Quando liguei para a veterinária e relatei os sintomas, ela me disse que para levar a Marie correndo para a clínica. Era aniversário do meu namorado. Ele foi trabalhar e eu fui sozinha para o veterinário com a gatinha.
Quando chegamos lá, só de olhar para a Marie a veterinária disse: “ela está anêmica”. Quando ela tirou uma amostra de sangue para analisar o hematócrito, o sangue saía tão lento que ela disse: “ela está muito anêmica”. Enquanto a amostra era processada, ela me perguntou se a Marie já tinha tido pulga e depois parou e perguntou se ela já tinha sido testada para FeLV. Como eu nunca tinha ouvido falar disso, disse que achava que não. Ela se sentou e me explicou então que havia 3 principais causas de anemia em gato. A primeira delas era hemorragia, que não era o caso da Maroca. A segunda era infecção por micoplasma (Mycoplasma haemofilis  ou Mycoplasma haemominutum), que é transmido principalmente por picada e pulga, e a terceira era FeLV.
A sigla FeLV vem do inglês (feline leukemia virus) e significa vírus da leucemia felina. Eu nunca tinha ouvido falar nesse vírus e prometo dedicar um post só sobre esse assunto, mas falando rapidamente, o vírus da leucemia felina é um vírus que causa imunodeficiência semelhante ao FIV (o HIV felino), com o agravante de poder gerar leucemia. Foi muita informação para assimilar em um intervalo de tempo tão pequeno, mas a veterinária me explicou que o vírus não tinha cura e que quando chegava na medula óssea podia causar anemia. Ela me sugeriu fazer o teste e disse que o resultado era bem rápido.
O teste para FeLV e FIV pode ser feito por ELISA ou por PCR. No primeiro caso é bem semelhante ao teste para gravidez (aparece um sinal de + ou – caso o gato seja positivo ou negativo para um ou para os dois vírus). É só pingar uma gotinha de sangue no kit e o resultado sai em cerca de 15 minutos. Fui para a sala de espera desesperada e tentando assimilar tudo aquilo. Fiquei sentada com a Marie dentro da caixinha no meu colo pedindo de todas as formas que eu podia pedir para que a minha gatinha tivesse uma infecção de micoplasma. Nunca vi isso. Ao invés de ter pedido e rezado para que ela não tivesse FeLV, pedi para ela ter uma infecção por micoplasma.
Depois daqueles 15 minutos que me pareceram 15 horas de angústia, fui chamada de volta à sala. Marie foi diagnosticada com o vírus da leucemia felina. Naquele momento eu não conseguia assimilar mais nada. Chorava compulsivamente enquanto a veterinária dizia que o hematócrito da Marie estava baixíssimo e que ela teria que receber uma transfusão de sangue. Disse ainda que se o vírus tivesse chegado à medula óssea não haveria mais nada a fazer senão “colocar fim ao sofrimento dela”. Foi demais para mim. Aquilo não podia estar acontecendo, não com a minha gatinha. E naquele desespero todo eu precisava arrumar sangue para ela porque a veterinária disse que a transfusão precisava ser feita naquele dia. Ou seja, eu tinha que arrumar um gato doador ou recorrer a um banco de sangue.
Nunca tinha pensado nisso, mas não é muito simples conseguir sangue para um gato. Fui para a casa levando a Marie e assim que cheguei liguei para o meu namorado e pedi: “volta”. Era aniversário dele e um dos piores dias da minha vida.

(continua no próximo post)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Cat sitter"

A primeira vez que eu ouvi essa expressão foi quando eu morava em Boston. Um belo dia apareceu uma gatinha super fofa lá em casa sem mais nem menos. Após verificar que todas as janelas estavam fechadas, acabamos descobrindo que ela morava no andar de cima da casa e tinha caído pelo forro do teto do banheiro. Parece coisa de filme, né? Quando devolvemos a gata, o dono – que ainda não tinha notado a falta dela – viu como eu tinha gostado da companhia e disse que eu poderia ser cat sitter dela quando precisasse. Acabou ficando por isso mesmo e desde que eu adotei a Marie tenho sentido falta de uma cat sitter.
Quem tem gato sabe que é complicado levar em viagens. Cachorro normalmente viaja bem para lugares próximos, mas os gatos sofrem muito, fora o medo de fugirem. E por mais que digam que eles são super independentes eu não consigo deixar a Marie sozinha. A minha gatinha é carente demais. Desde que adotamos a Maroca – há um ano e cinco meses, eu e o meu namorado viajamos juntos 3 vezes. Na primeira vez, passamos uma semana fora e meus pais se mudaram pra cá. Meu pai, aquele que não me deixava ter gato, veio aqui pra casa cuidar da Marie. Isso é que é prova de amor. Nas outras vezes, ficamos fora só por um final de semana e convenci amigos e a minha irmã a passarem aqui para colocar comida para ela. O fato é que a gente acaba incomodando muita gente quando resolve viajar. Mas como resolver esse problema?
Uma opção são os hotéis para animais. Eu conheço pessoas que já deixaram seus cachorros nesses hotéis, mas não conheço ninguém que tenha deixado o gato. Os gatos são muito territorialistas e ficam acuados quando mudam de casa. Eu pessoalmente teria muito medo de deixar a Marie em algum desses gatis, por melhor que fosse a aparência do lugar.
A outra opção é contratar uma cat sitter. Eu nem sabia que o serviço era oferecido aqui no Rio, até que vi hoje uma reportagem na Ana Maria Braga – pois é, meu namorado assiste “Bom dia Brasil” e a TV continua ligada depois que o jornal acaba – falando justamente disso. A reportagem era com a cat sitter Rafaela Velmovitsky, fundadora do cat sitter dos sonhos (http://www.catsittersonhos.com/). Achei a idéia ótima!  No site ela diz que troca a ração e a água, limpa a caixa de areia, dá carinho e até remédio. Como ponto positivo, ela diz que manda fotos e filmes diariamente para os donos (!). O ponto negativo é que pelo que eu entendi, ela passa só umas duas horas por dia com os gatinhos. Acho que a Maroca ia continuar carente... Dei uma olhada rápida na internet e poucas pessoas parecem oferecer esse serviço aqui no Rio. Fica aí uma dica para quem quiser investir nisso. Eu já fui cat sitter várias vezes para a Panqueca, gata da minha irmã, e posso dizer que é um trabalho ótimo para quem gosta de gatos.
Conhece alguma cat sitter ou algum hotel para gatos com bom atendimento? Deixe aqui um comentário.
Na foto, Marie escondida na mochila tentando viajar com a gente.



terça-feira, 5 de abril de 2011

Desafiando a gravidade

      Pesquisando um pouco sobre gatos, encontrei um artigo publicado em Novembro de 2010 na revista Science (artigo de capa!) que tratava de um assunto bastante curioso: de como os gatos precisam vencer a gravidade para beber água.
O ato de beber água é, na verdade, um desafio para todos os animais terrestres, já que eles precisam puxar a água contra a gravidade. Animais como cavalos e ovelhas usam a sucção para isso, mas os gatos e cachorros têm estratégias diferentes. Quem já observou um cachorro bebendo água, pôde notar que eles usam a língua como uma concha para trazer a água até a boca. Quem já observou com bastante atenção um gato bebendo água, pôde notar que a estratégia é outra.
Ao contrário do que acontece com os cachorros, a língua dos gatos não mergulha no líquido. A ponta da língua – que não tem aquela aspereza característica do restante – é a única parte que entra em contato com a água. A língua do gato toca o líquido curvada para trás e quando o gato levanta a língua, o líquido que estava aderido a ela é “puxado para cima” formando uma coluna de água. É importante destacar que a parte ventral da língua, ou seja, a parte da frente,  não toca o líquido. Apenas a ponta da parte de trás é que toca a água e cria a coluna. Incrível, né?
Estimativas das forças relacionadas ao processo sugerem que a dinâmica de fluido envolvida no ato de beber água dos gatos é governada pela inércia e pela gravidade. A inércia contribui para que o líquido suba através da coluna enquanto a gravidade atua de maneira a colapsar a coluna. Complicado, né? Mas como uma imagem vale mais do que mil palavras, eu recomendo uma espiadinha em algum dos vários vídeos disponíveis na internet com imagens em câmera lenta de gatos bebendo água ou leite. É realmente incrível como eles conseguem vencer a gravidade para beber.
No caso da Marie, a preguiça às vezes é grande e ao invés de vencer a gravidade para beber no potinho, ela prefere pegar a água direto da torneira. Muito mais prático, né? Esperta essa minha gatinha.
Gostou do estudo? Para mais detalhes, recomendo o artigo completo: “How Cats Lap: Water Uptake by Felis catus”, de Reis e colaboradores (Science vol 330, 2010) ou o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=Fgf9y8mo414&feature=related.

Na foto, a capa da Science e a Marie, espertinha, bebendo água direto da torneira.

domingo, 3 de abril de 2011

Gato também tem alergia?

Todo mundo provavelmente já ouviu falar de alguém que tem alergia a gato, certo? Agora acho que nem todo mundo sabe que gatos também têm alergia.  Eu mesma nunca tinha pensado no assunto até a Marie começar a se coçar. Pois é, logo depois do episódio da rede de limão e coincidindo com uma viagem minha, a Marie começou a se coçar com muita força principalmente no pescoço, no queixo e nas orelhas. E como eu nunca consigo cortas as unhas da danada, ela se machucava muito cada vez que se coçava.
Na primeira visita ao veterinário – quando eu ainda estava viajando – foi passado um anti-alérgico.  A princípio o anti-alérgico pareceu funcionar, apesar de deixar a gatinha extremamente sonolenta, mas era claro que não podíamos manter a Marie a base de Polaramine para o resto da vida. Comecei então a pesquisar sobre o assunto. Pelo que vi, existem 4 tipos principais de alergia em gatos: alergia de contato, alimentar, inalatória e alergia a pulga. Os sintomas são principalmente de coceira no corpo – em áreas específicas ou generalizada – mas pode haver também sintomas respiratórios e secreção nasal e oral. O mais difícil parece ser descobrir a causa da alergia.
Quando a alergia é alimentar, fica fácil resolver o problema. Em geral, os gatos têm alergia ao componente protéico da ração e no mercado existem rações hipoalergênicas, que possuem proteína de soja ao invés de proteína animal. Sei que a Royal Canin tem ração hipoalergênica para gatos, mas não sei dizer se alguma outra empresa também oferece. Torcendo para que a alergia da Maroca fosse alimentar, comprei um pacote da ração; que está em cima da minha geladeira até hoje. Pois é, a Marie se recusou a comer. Ela literalmente preferia passar fome a comer a tal ração de soja. Vegan ela não é e nem pretende ser.
A opção foi buscar uma ração que tivesse apenas um tipo de proteína animal e torcer para ela não ser alérgica àquele tipo específico. Olhei todas as embalagens do mercado e a grande maioria das rações mistura diversos tipos de carne. Só encontrei mesmo a Guabi que só tinha proteína de frango. Comecei a dar e nada da coceira melhorar. A veterinária explicou que levava pelo menos 8 semanas para que todos os componentes da ração anterior saíssem do sistema e só então poderíamos analisar se a mudança de alimentação tinha ou não melhorado a coceira.
Passamos então para a alergia de contato. Logo de cara, trocamos a areia sanitária. Experimentei várias – de pedrinhas, de trigo, de madeira – e acabei optando pelo trigo, mas nada da coceira melhorar. Proibi todo e qualquer material de limpeza em casa – só usamos álcool e água sanitária bem diluída – e por fim troquei o sabão em pó por sabão de coco. Nada melhorava e as feridas estavam cada vez piores. A Marie não tinha mais pêlo no queixo e tivemos que colocar o colar elisabetano para ela parar de se machucar.
Nesse meio tempo, mudamos de veterinária. A primeira disse logo de cara que seria quase impossível descobrir a causa da coceira. Disse que podia ser alérgica ou auto-imune e passou logo um tratamento com corticóide. Chegamos a dar um ciclo de corticóides meio temerosos e, apesar de diminuir um pouco a coceira, o tratamento não eliminou o problema.
Mudamos de veterinária e a nova – especializada em gatos e que continua tratando a Marie até hoje – disse que a alergia podia estar relacionada a estresse, já que tinha começado logo depois da cirurgia. Compramos então um difusor com Feliway. Propondo ser “o segredo do gato feliz”, o Feliway é um análogo sintético do ferormônio facial dos gatos, que é usado para marcar o território (farei um post sobre isso no futuro), e teoricamente cria um ambiente de segurança e familiaridade para o gato. Resumindo: também não funcionou.
Acabamos fazendo mais um ciclo de corticóides que teve um efeito péssimo na Marie – segunda desventura que será abordada em algum dos próximos posts – e fomos para uma dermatologista que também não resolveu o problema. Final da história: de uma hora para outra a coceira foi diminuindo. O fato é que durante um período grande estávamos cercados de obras: no apartamento em cima, no prédio da frente e na rua.  E quando as obras acabaram a coceira melhorou. Não posso afirmar que o problema fosse esse, mas o pêlo do queixo voltou a crescer. Acho que a Marie é alérgica a poeira e que o estresse potencializa o problema. É só alguém falar um pouco mais alto que ela começa a se coçar. De vez em quando ela ainda acorda com os olhos lacrimejando ou se coçando demais, mas é só dar anti-alérgico por alguns dias que ela melhora. E o mais legal é que ela aprendeu que não pode se coçar com força. Quando ela começa a se coçar, a gente diz “devagar, Marie” e ela deixa de fazer força. Parece incrível, mas é verdade! A moral da história é: se o seu gato é alérgico, tente eliminar a causa da alergia ao invés de tratar com corticóide. Prometo pesquisar sobre testes de alergia e imunoterapia em gatos para postar logo logo.

Na foto, Marie super insatisfeita com o colar elisabetano feito de filme para raio-X.