Na correria não consegui postar os votos da Marie antes do Natal, mas posto agora desejando a todos um feliz 2012!
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
Gatos odeiam gaita?
Pois é, constatei ontem que a Marie odeia o som de gaita. O meu namorado tem uma gaita e sempre que ele toca a Marie olha com cara de desespero para ele e sai correndo. Até aí tudo bem. Achei que ela simplesmente não entendesse o que estava acontecendo e se perguntasse “de onde está vindo esse som?”. Mas não, ela realmente parece ter medo do som produzido pela gaita. Ontem estávamos vendo um filme e a Marie estava deitada do nosso lado dormindo tranquilamente. Quando começou a tocar uma música de gaita a gatinha levantou, nos olhou com cara de pavor total e saiu correndo! Tivemos que desligar o filme, acalmar a gata e prometer que não colocaríamos mais aquele som terrível. Resolvi então pesquisar um pouco o assunto e vi vários relatos de pessoas dizendo que seus gatos odeiam gaitas. Engraçado, né? Aparentemente tanto gatos quanto cachorros comumente odeiam o som produzido por gaitas. Acredito que seja uma questão de frequência do som, já que esses animais são mais sensíveis do que nós a altas frequências, mas confesso que apesar de ter procurado bastante não encontrei nenhuma explicação científica para o medo absoluto que eu vi nos olhos da Marie. Se alguém tiver alguma sugestão ou souber de algum gato que também tem pavor de gaita, por favor me escreva. De qualquer forma, a gaita está banida aqui de casa. A Maroca não pode se estressar e como a veterinária dela definiu, sua vida tem que ser “um mar de rosas”.
Agora, apesar de não ter encontrado a explicação científica que estava procurando, encontrei uma curiosidade interessante nas minhas buscas: o PawSense. Alguém sabe o que é isso? Aparentemente, o Pawsense é um software que foi desenvolvido para reconhecer o padrão de digitação de um gato no seu computador. É isso mesmo, depois de ouvir vários relatos de pessoas que perdiam arquivos importantes quando seus gatos resolviam passear pelas teclas do computador (a Marie fazia isso direto quando eu estava escrevendo a minha tese de doutorado), os responsáveis por esse software resolveram desenvolver uma ferramenta para deixar o seu computador “catproof”.Como as patinhas dos gatos são maiores que as teclas do computador, o programa consegue reconhecer o padrão e distinguir a digitação humana da “digitação” feita por um gato (em geral apenas duas pisadas do seu gato sobre as teclas são suficientes). Desta forma, ao reconhecer o chamado “cat-like typing” (ou digitação do tipo gato) , o programa bloqueia o teclado e emite um som desagradável para que o seu gato aprenda que não pode subir no teclado. Que som é esse? Eu não testei, mas aparentemente é um som de gaita! Engraçado, né? Se o seu gato costuma apagar constantemente aqueles arquivos mais importantes, fica a dica: http://www.bitboost.com/pawsense/index.html. Ah, e se você quiser deixar o seu gato tranquilo, sugiro que evite tocar gaita em casa.
sábado, 15 de outubro de 2011
Por que os gatos ronronam? Parte 2 ou Será que o ronronar dos gatos ajuda na regeneração dos ossos???
Antes de começar, tenho que explicar que o primeiro post sobre o ronronar dos gatos foi baseado em um artigo científico publicado em uma revista indexada. Este segundo post, ao contrário, é baseado apenas em uma página da internet da “Fauna Communications”. Teoricamente o trabalho foi publicado em uma conferência internacional em Bristol, no Reino Unido, mas como não tenho maiores garantias sobre a fonte dos dados, vou apenas relatar o que li e deixar que cada um conclua o que quiser.
Enfim, como mencionei no post anterior sobre esse mesmo assunto, ainda existe um debate com relação ao ronronar dos gatos e não se sabe ao certo porque eles ronronam. O fato é que eles ronronam não só quando estão satisfeitos mas também em situações de estresse. E como esse ato gasta bastante energia, é de se imaginar que haja alguma razão justificável por trás disso. No trabalho publicado pela Fauna Communications, 47 felinos foram gravados, incluindo gatos domésticos, pumas e jaguatiricas e o ronronar deles foi analisado. Eles descobriram, então, que o ronronar dos felinos gera frequências que caem na faixa considerada positiva para o crescimento ósseo. A frequência dominante foi de 25Hz ou 50Hz, que são consideradas as melhores frequências para o reparo de fraturas ósseas.
Aparentemente, estudos do Dr. Clinton Rubin mostram que a exposição a frequências baixas (de 20 a 50 Hz) aumenta a densidade óssea e galinhas colocadas diariamente em placas vibratórias desenvolveram ossos mais fortes. Engraçado, né? Em outros estudos coelhos teriam desenvolvido um melhor reparo de fraturas ósseas quando expostos a frequências nessa mesma faixa. Existem estudos, ainda, mostrando que frequências baixas auxiliam no alívio a dores e no reparo de tendões e músculos. Não chequei as fontes, mas parece que a estimulação biomecânica com frequências baixas vem sendo utilizada na medicina esportiva. Curioso, não?
O que o estudo da Fauna Communications propõe então é que a capacidade de estimular o fortalecimento ósseo quando em repouso seria uma vantagem evolutiva dos felinos que, na vida selvagem, são relativamente sedentários. Desta forma, o ronronar dos gatos seria um sistema de vibração terapêutico. Interessante, não? De fato, parece que os gatos têm poucos problemas ósseos quando comparados por exemplo aos cachorros. E, como todos sabem, gatos têm sete vidas! Agora se essa maior capacidade de reparar fraturas ósseas e a menor tendência a desenvolver doenças ósseas está realmente associada ao ronronar dos gatos é uma questão que ainda está em aberto, já que não foram feitos experimentos para testar efetivamente essa hipótese. De qualquer forma, tenho que admitir que a hipótese é no mínimo interessante. Fica então a dica: se você quebrar um braço ou uma perna, procure ficar o máximo de tempo possível perto de um gatinho ronronando. Tenho certeza de que a recuperação será mais rápida! Seja por causa da frequência ou não!
Quer saber mais? http://www.animalvoice.com/catpurrP.htm
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Gatos verdes ajudam na luta contra o HIV?
Ok. A essa altura todo mundo já leu a matéria sobre os gatos verdes. Confesso que demorei para escrever e talvez tenha perdido o timing. Mas para quem quiser um pouco mais de informação do que as resenhas dos sites que encontrei por aí, sugiro que leiam a minha versão da história.
Bom, a ideia de produzir gatos verdes parece ficção científica, mas em pesquisa, nós comumente criamos organismos geneticamente modificados expressando uma proteína verde para que possamos diferenciá-los dos demais. Compliquei? Vou tentar explicar melhor: a proteína GFP (do inglês green fluorescent protein), ou proteína fluorescente verde, foi extraída de uma alga e atualmente é utilizada para localizar alguma modificação. Por exemplo, se pretendemos transplantar células de um animal para outro, podemos inicialmente marcar as células transplantadas com GFP e depois transplantá-las. Dessa forma, podemos facilmente distinguir as células verdes (transplantadas) das células do animal hospedeiro. Ficou claro? Esse é apenas um exemplo, porque as aplicações da técnica são inúmeras.
Recentemente, Pimprapar Wongsrikeao e colaboradores, de Rochester, Minnesota, criaram gatos geneticamente modificados para expressarem GFP. Ou seja, criaram gatos verdes. Para isso, eles injetaram um vírus que carregava GFP nos ovócitos de gatas (antes ou depois da fecundação in vitro) e colocaram os embriões modificados no útero de outras gatas. O processo não é tão simples como pode parecer e de 418 ovócitos infectados com os vírus, 22 embriões foram implantados em diferentes gatas e nasceram apenas 3 gatinhos. Dois machos e uma fêmea receberam o nome de TgCat1, TgCat2 e TgCat3, respectivamente. Tenho que fazer um parêntese aqui para dizer que esses pesquisadores não tinham criatividade nenhuma para dar nome aos gatos! Enfim, os gatinhos eram verdes quando iluminados por uma luz especial e se desenvolveram normalmente, com exceção do TgCat2, que apresentou vários problemas (dermatite, hérnia, problemas no olho). Já comecei a ficar com pena dos gatinhos. Depois que cresceram, eles acasalaram e os filhotes mantiveram a expressão de GFP.
A ideia principal do trabalho era apenas essa, provar que era possível criar um gato transgênico. E parece que esta foi a primeira vez em que essa técnica foi utilizada em uma espécie carnívora. Técnicas diferentes já tinham sido utilizadas, mas o rendimento era muito baixo. Mas, além disso, os pesquisadores colocaram uma outra modificação nos embriões e, além de expressarem a proteína verde, eles expressavam o gene TRIM5α, que confere resistência ao HIV em macacos rhesus. Quando as células dos gatinhos verdes foram infectadas com FIV – o correspondente felino do HIV – os pesquisadores observaram que as células eram resistentes à replicação do vírus! Essa resistência era parcial, apenas, mas o resultado é sem dúvida interessante.
Como ainda não foi feito nenhum experimento de infecção nos animais (não consigo pensar em gatos como cobaias; é muito triste pra mim), ainda não se sabe se apenas esse gene seria capaz de impedir a contaminação dos animais, a replicação do vírus e/ou o desenvolvimento da doença ou se seriam necessários outros genes. De qualquer forma, como existem duas pandemias de AIDS no mundo, uma em humanos e outra em felinos e como o FIV e o HIV são extremamente parecidos, esses gatinhos verdes podem ajudar – quem sabe – no estudo de uma possível terapia gênica contra o HIV. Isso tudo ainda está bem distante e devo dizer que não me senti bem ao pensar naqueles gatinhos verdes no laboratório, mas espero que um dia eles sejam úteis na cura contra o HIV e o FIV. Quer saber mais? Leia o artigo completo: “Antiviral restriction factor transgenesis in the domestic cat”, de Wongsrikeao e colaboradores (Nature Methods, 2011).
sábado, 3 de setembro de 2011
Por que os gatos ronronam? Parte 1
Quem tem gato sabe muito bem que quando eles estão contentes começam a ronronar. A Marie, por exemplo, tem um ronronar super diferente, que quase se assemelha a um ronco. Eu sempre fiquei bem satisfeita em ouvi-la ronronar, certa de que aquele barulhinho era um sinal de satisfação e contentamento. Agora o que eu não sabia é que os gatos também ronronam quando estão com medo, machucados, dando a luz ou até mesmo quando estão morrendo. Triste, né? E o ronronar, gerado – pelo menos é o que se imagina - pela vibração do diafragma e da laringe, parece ser conservado nos felinos, estando presente até mesmo nos grandes felinos, como os leões.
Características que são conservadas em diferentes espécies em geral representam alguma vantagem evolutiva. Explicando melhor: quando alguma característica não confere nenhuma vantagem adaptativa a um animal, ela provavelmente acaba sendo perdida ao longo da evolução. Ficou claro? E para ronronar, o gato precisa gastar energia. Para gastar energia em situações de estresse – quando estão machucados, por exemplo – os gatos devem ter um bom motivo para isso. Mas que motivo seria esse?
Bom, essa parece ser mais uma daquelas perguntas de 1 milhão de dólares. E ao contrário do que provavelmente sugere o título desse post, eu não tenho uma resposta para ela, apenas uma sugestão que encontrei em um artigo publicado em 1973. O artigo é um relato de caso de um veterinário. O paciente em questão era um gato siamês de 6 anos de idade com infecção aguda no trato respiratório. O gatinho foi medicado mas fugiu e deixou de tomar os remédios por 3 dias. Quando reapareceu, o quadro dele era péssimo e o veterinário estava considerando a eutanásia. Prometo que a história vai ficar melhor.
Depois de dois dias internado, o gato foi levantado para que fosse trocado de gaiola e nesse momento, ele começou a ronronar. Imediatamente a respiração dele começou a melhorar. Quando ele retornou à gaiola, parou de ronronar e voltou a ter dificuldades em respirar (num quadro conhecido como dispneia). O veterinário convocou então as duas filhas e pediu que elas se revezassem com o gatinho no colo para que ele voltasse a ronronar. Elas estabeleceram então a “terapia do ronronar”, com períodos de colo a cada meia hora durante 24 horas. No dia seguinte, o gato começou a comer. Daí em diante, graças à terapia nova, o gatinho foi ficando cada vez melhor. Viu? Prometi que a história ia melhorar.
É claro que o carinho das meninas por si só poderia fazer com que o gato melhorasse, mas o veterinário acredita que o ronronar é que permitiu que ele voltasse a respirar. Aparentemente os gatos só conseguem respirar pela boca quando estão ronronando e isso seria de grande ajuda para evitar a dispneia. Gostou? Leia o artigo completo: “The relief of dyspnoea in cats by purring” de Cook, 1973.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Gatos de Roma
Pois é, faz um certo tempo que eu não coloco nada aqui no blog e um dos motivos é que eu acabei de voltar da Itália. Fui para um congresso de neurobiologia, mas aproveitei para tirar uns dias de férias e visitar Florença, Veneza e Roma. Durante a viagem, saudosa da Maroca, eu fotografei alguns gatos que encontrei pelo caminho. Não foram muitos, devo admitir, e estão todos na foto aí embaixo. Mas o que me impressionou mesmo foi como os italianos vendem souvenir de gatos! É sério. Eu tenho uma coleção de enfeites de gatos e toda vez que viajo procuro um gatinho novo para comprar. Normalmente tenho pouquíssimas opções e acabo comprando um mais ou menos só para completar a coleção. Na Itália, não tive esse problema. Eram várias opções!! Acho que nunca vi tantos assim. E observando isso, não pude deixar de pensar que os italianos devem gostar muito de gatos. Resolvi pesquisar um pouco sobre o assunto.
Não achei nada muito oficial, mas vou dar uma resumida no que li. Aparentemente, Roma é famosa por ter um grande número de gatos de rua. A estimativa do "Ufficio Diritti degli Animali" é de que sejam cerca de 300.000!!! E o legal é que uma lei nacional de 1991 proibiu a matança de gatos de rua e em 2001 eles foram considerados patrimônio biocultural. Existe um serviço veterinário público que faz a castração gratuita desses animais e existem organizações que cuidam deles. O curioso é que os bichinhos parecem preferir as ruínas da Roma antiga. No coliseu, existem cerca de 200 gatos (eu infelizmente não vi nenhum por lá) mas a maioria deles fica no "Largo di Torre Argentina". Essas ruínas, que datam de 400 a 300 a.C., representam o local onde Júlio César foi assassinado por Brutus em 44a.C., e hoje são moradia para cerca de 250 a 300 gatos. Eu só consegui fotografar dois, mas eles estavam realmente lá, tomando sol embaixo de uma coluna romana.
Os gatos parecem ter chegado a Roma vindos do Egito e ajudavam a reduzir a população de ratos. Quando a Igreja católica começou a tratá-los como bruxaria e a caça-los, a população de ratos aumentou e a peste bulbônica chegou à Itália. Interessante, né? Mas isso já é assunto para outro post.
Quer ajudar um gato romano? O santuário de gatos da Torre Argentina pode ser contactado através do email: torreargentina@tiscali.it. Através deles você pode adotar um gatinho à distância!
Nas fotos, os gatos que encontrei na viagem.
Nas fotos, os gatos que encontrei na viagem.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Como os gatos se comunicam com os donos (ou como os gatos manipulam seus donos)
Muitas pessoas que não tem nem nunca tiveram contato com gatos talvez não acreditem, mas eles realmente aprenderam a se comunicar conosco. A Marie, por exemplo, tem um miado diferente para cada coisa que ela quer. Quando quer comida o miado é de um jeito, quando quer atenção o miado é outro, quando quer ajuda para caçar um bicho o miado já é completamente diferente. E por assim vai. Ainda não gravei para provar, mas encontrei um artigo que trata justamente desse assunto.
Karen McComb e colaboradores da Universidade de Sussex, no Reino Unido, gravaram o ronronar de 10 diferentes gatos em duas situações diferentes: numa situação em que o gato estava pedindo comida e numa situação em que o gato não estava pedindo nada. Ao contrário do que se pensa, os gatos não ronronam apenas quando estão felizes, mas também quando pedem comida e até mesmo quando estão sentindo dor. Os diferentes sons foram então exibidos para 50 voluntários donos ou não de gatos e em todos os casos os voluntários sabiam perfeitamente qual era o som de pedido, ou seja, em qual dos casos o gato estava pedindo comida. Incrível, né? Isso sem conhecimento prévio! É claro que os donos de gatos se saíram melhor nos testes do que os voluntários que não tinham contato nenhum com gato, provando que os gatos ensinam seus donos a reconhecer os seus miados!
Analisando a composição do som do ronronar dos gatos, os pesquisadores observaram que além do som em baixa freqüência – característico do ronronar – havia um componente de freqüência mais alta quando os gatos estavam pedindo comida. A inclusão de um componente de alta freqüência no ronronar faz com que ele fique menos harmônico e, por isso, mais incômodo. Ou seja, faz com que o dono tome alguma atitude! Além disso, o pico de freqüência está bem próximo à freqüência do choro de bebês humanos, fazendo com que os humanos fiquem mais suscetíveis a eles! Espertos esses gatos, né?
Quando a Marie mia no meio da noite eu juro que tento ignorar, mas não tem como. A gatinha sabe mesmo miar na freqüência certa!! Acho que os gatos já aprenderam mesmo a nos manipular. Quer saber mais? Confira o artigo completo: “The cry embedded within the purr”, de McComb e colaboradores (2009).
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